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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

No tempo já gasto


É no tempo que nos recostamos
Confortáveis, esperançosos,
Pois só ele controla
O envelhecimento dos rançosos.
É uma miragem,
Sem margem,
Não tem fim se não quisermos,
Está lá se nós estivermos.
Persegue-nos.
É cobardia.
É o tempo já gasto.
Desperdiçado
Numa névoa que ardia.
E quando não sei,
é desse tempo que também
eu faço meu encosto,
e desgosto.
Vergonha,
é coisa que nem todos têm
É pacto de letras miudinhas
que nem todos vêem.
Leiam nas entrelinhas...
Dos meus dedos nasce fumo,
Ainda não sou feiticeira negra,
É por isso que não durmo
Tenho língua biforcada
Mas vejo sempre uns três lados.
Palavras ciseladas,
Escrevo no meu luto.
São voláteis,
ineternas,
conscientes, hábeis.
São-vos externas...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Trono de cristal, Chapéu de papel


Aqui estou eu sentada no meu trono.
É assim que me mostro todos os dias aos que pouco conheço. Deve ser assim que me vêem, mas não sei ao certo, pois não conheço os seus olhos.
Sou orgulhosa, sim. Sempre que posso. É neste trono imaginário que dito as minhas sentenças.
Digo-lhes: não me perturbem. Pois este ilusório trono é feito de cristal. E a coroa que vêem, pousada delicadamente nos meus cabelos, esta instável. É na verdade um chapéu de papel.
Ás vezes agarro-me a ela, e mostro-vos, lá do alto do meu trono, como tenho razão.
Dizem-me que sim, acenam com a cabeça. Estão cansados. Cansados de mim. Mas é de vocês que eu preciso, até desses vossos acenos indiferentes…
Vocês é que me podem dar uma escada, ajudar-me na descida, deste trono banal que não me pertence.
É assim. Perto de vós, que conheço os olhos.
Os meus já vocês conhecem, mas é assim, de pertinho, que me descobrem o sorriso. Esse que não consigo esconder.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

sem título (provavelmete de 2005/06)


Expliquem-me a mim,
que não entendo:
Como me posso expressar
se nem a mais profunda das dores
me é permitida?
Serei assim tão ingénua?
Alma de artista incompreendida
Como posso ajudar
se não conhecer o problema?
Porquê tão grande diferença
entre cruel dor latejante
e euforia dos céus?
Expliquem-me a mim,
Que não compreendo:
Serei assim tão diferente?
Chegarei ao ponto,
de me sentir deslocada?
A coisa que mais odeio é esta vida:
atribulado romance
em que todos têm um papel
menos eu,
que improviso!
Apenas eu me exponho,
como sou verdadeiramente,
mas nem isso posso,
dou por mim a sorrir,
quando na verdade estou a chorar.
Todos se querem assemelhar
escondem a sua verdadeira vida...
A vergonha que sentem
apenas por não combinar...
Outros ainda, se querem destacar
acabando por cometer
tão grande crime que é plagiar!
Não percebo este mundo cruel:
se apenas neste palco
posso gritar
odiado teatro
onde apenas disponho de uma oportunidade.
Depois acabou.
Não tenho vida,
não tenho alma,
não tenho corpo,
não tenho ninguém.
Duvido que continue com esta vontade de gritar
sentimentos desassossegantes,
odiosos,
talvez desconhecidos,
fervilham em mim!
Gritar
Chorar
Até não me lembrar
do que estava antes a murmurar...
Pois é essa a impressão que tenho..
Como gritar
se voz não tenho?
Cruel espectador,
porque assistes?
Porque não te vais embora,
e desistes?
Mas se ficares,
prometes contar-me já
o final deste teatro,
que de cor já conheces?
Conta-me tudo,
pois se bem te lembras
estou a improvisar
e uma ajuda
vinha mesmo a calhar.
A fúria que tinha,
já não tenho,
mas fica sabendo:
que volta
como um rebanho..
Grandes injustiças a vão despoletar
E tu, que tens o guião
com o tempo perdes-te nas folhas
pois à medida
que ris e ressonas...
eu, experiência ganho
e finalmente um papel
nesse teu guião.
Um papel
que na verdade
sempre me pertenceu
sempre fui e sempre serei
mais uma artista incompreendida
O meu caminho me espera por esse guião fora...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A Ânsia do Tempo

E quando o tempo não passa

e os relógios não andam
A ânsia fervilha
numa frágil tacinha

O tempo não anda
Não pára de não andar
Não avança
Não se cansa
Alguém o faça mudar!

Parados
todos estamos
e cansados
do tempo duvidamos

Tamborilamos
Assobiamos e gritamos
Pois cansados estamos
do tempo esperar

Estamos acorrentados
a este lugar
Por favor
alguém convença o tempo a andar!

Já de unhas roídas
(e boca arreganhada
que não tarda a espumar!)
É raiva sintética
fruto do tempo parar.

E em delírios meio apagados,
estamos conscientes,
mas sonhados.
Fatigados.

Sabemos que nem um tudo nada mudou.
Só que a nossa vela ainda não se apagou.
Para a minha Família.

domingo, 28 de outubro de 2007

Lágrima de Preta - de António Gedeão


"Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio."
Para quem a curiosidade canta, clicar no título é uma boa opção.

sábado, 20 de outubro de 2007

O Sonho da Lua


Escape sagrado,
segredo mil vezes contado,
onde as folhas sibilam
e as aves dançam
onde os pés tocam a água
e a chuva lava a cara
onde a dor não dói
e o tempo passa
onde as mãos se dão
e os pés dançam
no ritmo das folhas sibilantes e das aves dançantes
bailemos no vento
velho amigo do mar salgado
salgados são os peixes
brilhantes e luzidios
e os gatos,
ladrões da meia-noite
de banquetes da lua
onde as estrelas tocam o céu
e o céu toca as estrelas
onde as nuvens não passam de sonhos
sonhos esses que de imaginários ou inatingíveis nada têm
dá me esse teu sonho
esse ladrão da meia-noite
esse peixe salgado
essa tua mão calorosa e seca
feita areia do deserto,
lavado pelo sal do mar
onde nada o peixe brilhante
amigo do gato-ladrão
e do vento e do mar.

Onde me levas Lua?

sábado, 6 de outubro de 2007

Rent - Seasons of Love - 525,600 minutes


E porque a música é o caminho para o coração, aqui está a (talvez mal escrita) letra de entrada do filme Rent, que me foi emprestado (obrigada Avô Arnaldo da Bibi!) :


"525,600 minutes
525,600 moments so dear
525.600 minutes
How do you measure,
measure a year?
In daylights?
In sunsets?
In midnights?
In cups of coffee?
In inches?
In miles?
In laughter?
In strife?
In 525,600 minutes,
How do you measure a year in the life?
How about love?
How about love?
How about love?
Measure in love.
Seasons of love..!
Seasons of love..!
525,600 minutes
525,600 journeys to plan
525,600 minutes
How do you measure the life of a woman or man?
In truths that she learned or in times that he cried?
In the bridges he burned or in the way that she died?
It's time now, to sing out, tho' the story never ends..
Let's celebrate,
Remember a year
In the life of friends
Remember that love
Remember that love
Remember that love
Measure your life in love..
Seasons of love..!
Seasons of love..!
Measure your life in love."

Rent - Jonathan Larson

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Time to change (the) World


New things can be scary
Or frightening
But i'ts okay
You've just got to try
And stay

After all,
Life is but a new beggining
Try harder
You'll become close to perfect,
Just in time to try again...
...and do it better.

It might sound like time is repeating itself,
But soon, faster
Without call or notice
It'll all be far...from disaster...

It's only another different world...a step away.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

For Now I'll Stay


I need, more and more...
To learn, to know,
To learn how to know,
To know what to say,
Not to forget,
Words of wisdom,
So they stay with me...
These thoughts of peace.
So one day I can say: I know...
But for now I can't,
Not yet, it's not right,
It's not that simple,
But one day it will be.
So simple to me,
So my simple eyes will see.
How simple it really can be.
For now, I'll stay,
And think of a way...
There are just somethings I can't obey.
Some rules...they're just untrue.
I need silence, to think of a way.
I can't just run away.
For now,
I'll stay.

domingo, 9 de setembro de 2007

If only


If only I could stop time,
And dream of perfectness
If only I could stop time,
And dream of us...

Say I'm sorry,
Never hurry,
Hug you,
I love you...

No matter what,
I'll be there,
For you, for me,
I know you'll see...

Stop time and say:
I promise, this time,
I'll stay,
Just don't let me down...

That's all I'd ever say...
But to me,
It's simple, clear,
You're there,
Waiting for me.

Your watch ticks,
Faster than mine,
I'm late again.
What a stupid watch of mine!

How come?
How come, I always seem late?
Is it me?
Or is time against me?
Running fast, bursting with faith...

How come time won't stop?
Let me hold you once again?
I need you.
Give me your watch.
Maybe it'll work with me...

Once again I'm late,
It must be a step of faith,
If only I told you...
You would wait.

...for you, Mummy.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Atenção Víbora Ousada


Mas o que achas que estás a fazer?
Não mudas nada.
Só estás a perder.

Os planos que fazes
São para esquecer.
Vê se trincas a língua, víbora!
Tens olhos p'ra ver!

Apesar de embainhada,
Tenho a espada bem afiada.
Vou ao teu castelo
Ver-te perder.

Achas-te tão lixada.
Estás pronta a morder.
Ainda perdes o fio à meada,
Vá, vai-lá p'ró sofá TV ver.

A tua máscara
É o teu abrigo,
Mas a tua língua áspera
É o meu inimigo.

Por buracos e caminhos,
Escondes-te,
À espera
De uma presa.
Esse teu depósito de veneno
Feito represa.
Pensas que te veneram,
Mas mal te toleram.
Desce lá dessa banqueta,
Que achas pódio.
Vês-te grande vedeta,
Mas quem te olha
Só sente ódio.

Admite,
Esta minha raiva
Encanta-te.
Gostas de ver
Este teu Zé Povinho sofrer.

Já pensaste bem?
Pode ser só fachada...
É que desta luva branca,
Espera-te uma boa chapada.

Fazes de todos mero escarrador.
Mas acredita que cuspir o teu veneno
É tão bom que quase gera amor.

Tem cuidado!
É que esse teu fogo,
Que ainda não sabes cuspir,
Pode ser amor.
Esse grande jogo
Que para ti,
Não passa de fulgor.
É um ardor.
Esse sentimento que me causas,
Pequeno desconforto,
Nada mais que calor.

Já não me afectas,
E nem isso detectas.
Andas assim tão ocupada
Víbora ousada?

Se estás ameaçada,
Espero bem de extinção.
É que tanta crueldade junta
Afoga-me o coração!

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Pretexto para Protesto


Uma pessoa sem cabeça,

Num mundo sem corpo,

Num dia sem fim.

Sem um momento louco,

Tudo parece pouco,

Mas talvez só a mim!

Eu quero ter cabeça,

Quero pensar!

Eu quero um corpo no mundo,

Quero ouvir falar!

Eu quero dias sem fim,

Mas também avançar!

Quero momentos loucos,

Sem significados ocos,

Quero ouvir a Terra rodar!

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Magos Molhados, english version


At the risk of not being understood, I decided to translate the poem "Magos Molhados" to english, so it may be better understood by whoever isn't familiar to Portuguese. Even though literature isn't really translatable.


"Wet but Wise"


We hurt with no sense, and perspire love.

The wound that stays, recovers hurtfully.

We breathe salt that burns us inside.

It burns as the burning flame that it is.

We change clothes like who bites ones nails.

But with the clothes come memories.

Simple thoughts that call us low.

And the clothes don't go to wash.

They rest in the basket in spirals of rich flavour.

Calling low whoever hears.

So we put words with no sense together.

A colourless melody.

We don't sing because the eyes are already doing it.

Shiny as wet bugs.

They're wise without knowing.

Each foot a wish.

If lost, I don't know.

But felt, for sure.

sábado, 23 de junho de 2007

Magos Molhados


Magoamos sem sentir, e transpiramos amor.

A ferida que fica, sara dolorosamente.

Respiramos sal que nos arde lá dentro.

Queima como chama ardente que o é sempre.

Trocamos de roupa como quem roi as unhas.

Mas com a roupa vêm memórias.

Simples recordações que nos chamam baixinho.

E a roupa não vai pra lavar.

Descança no cesto em espirais de aroma rico.

Chamam baixinho pra quem ouvir.

Aí juntamos palavras sem sentido.

Uma melodia sem cor.

Não cantamos porque os olhos já o fazem.

Brilhantes como escaravelhos molhados.

São magos sem o saberem.

Cada pata um desejo.

Se perdido, nao sei.

Mas sentido, sem duvida.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Acordar

Hoje acordei. Hoje acordei e vi. Vi o sol.

Percebi que não gostar daquilo que não percebemos é natural ao ser humano.

Por vezes precisamos de nos afastar para perceber e talvez passar a gostar.
Como se fôssemos todos míopes...
Verdade é que acordo muitas vezes. Faz me sentir bem.
Verdade é também que alguns de nós já acordam com óculos.
Descobri que para ver não são precisos novos olhos. Apenas acordar. É bem mais simples. O que prova que como humanos também temos o terrível hábito de complicar as coisas. Até um ovo cozido.
Ou um desenho. Um desenho é aquilo que quisermos. Nunca pode estar errado. Mas, já sabemos, há excepções.

Falta-me arranjar uns óculos para encontrá-las todas. Mas não quero descobri-las todas de uma só vez. A minha vida tornar-se ia monótona. Acho eu.
Posso ser cobarde por não querer descobri-las todas, mas depois de descobertas não poderia esquecê-las.